No ritmo acelerado da transformação digital e sustentável, a inovação já não é mais um processo isolado dentro de empresas e instituições. Ela exige colaboração, troca de ideias e a capacidade de reunir diferentes experiências para alcançar resultados mais rápidos e eficazes. Esse é o conceito central de “inovação aberta”, um modelo que vem ganhando força no setor privado e acadêmico, permitindo que empresas, universidades, centros de pesquisa e outras entidades trabalhem juntas para criar soluções inovadoras.
Para atender às necessidades reais da sociedade, na velocidade exigida, é fundamental fortalecer a colaboração entre empresas, instituições de pesquisa, governo e, em muitos casos, a própria sociedade, com a adoção de tecnologias emergentes. Felizmente, essa consciência tem avançado: hoje está mais claro que ninguém conseguirá, sozinho, entregar as soluções que o momento exige.
Quem explica com exclusividade à MundoAgro é Luciana Teixeira, especialista em Inovação Tecnológica e Desenvolvimento de Novos Negócios da Fundação de Desenvolvimento da Pesquisa do Agronegócio (Fundepag).
Ela aponta que esse tipo de interação exige uma mudança cultural. “Por muito tempo, existiram barreiras — inclusive jurídicas — que dificultavam parcerias entre o setor privado e instituições públicas de pesquisa. A primeira Lei de Inovação do Brasil é de 2004. De lá para cá, evoluímos bastante. Hoje, há um arcabouço legal mais robusto, que permite essas conexões com mais segurança”, explica.
Mas, segundo ela, não basta apenas ter leis. “É preciso também amadurecer a forma de pensar os resultados: sair da lógica individual e avançar para uma visão mais coletiva. Isso envolve confiança mútua, regras claras, instrumentos jurídicos bem definidos e, sobretudo, investimento público em inovação — com recursos de fomento que incentivem a busca por soluções estruturantes”, diz.
Luciana Teixeira afirma que estamos avançando e vemos cada vez mais exemplos de boas parcerias. Mas ainda há um caminho a percorrer e que a falta de alinhamento ou de um discurso mais integrado entre os diferentes atores muitas vezes atrasa o desenvolvimento de soluções e desperdiça oportunidades. “Por isso, acredito que construir essa sinergia — com base em objetivos comuns — é um dos grandes caminhos para fortalecer o agronegócio e gerar impacto positivo para a sociedade como um todo”, diz.
Necessidades reais, atuais e futuras em termos de inovação e tecnologia que podem fazer a diferença para o sistema de produção de proteína animal
O sistema de produção de proteína animal enfrenta hoje uma série de desafios que exigem soluções inovadoras — desde o cuidado com a saúde e o bem-estar dos animais até questões ambientais, de produtividade e de exigências do mercado consumidor.
Luciana Teixeira explica que entre as necessidades mais urgentes, estão tecnologias que ajudem a monitorar a saúde dos animais em tempo real, reduzindo perdas e melhorando a eficiência. Também ganham destaque soluções para diminuir o impacto ambiental da produção, como o uso mais eficiente da água, o reaproveitamento de resíduos e dietas que reduzam a emissão de gases de efeito estufa. “Outro ponto importante é a digitalização da cadeia produtiva. O uso de sensores, automação e análise de dados permite decisões mais rápidas e precisas, além de melhorar o controle e a rastreabilidade — algo cada vez mais valorizado pelo consumidor”, detalha. “Inovação é essencial para agregar valor ao produto final, oferecendo transparência sobre a origem e os processos envolvidos, e para garantir que o setor esteja preparado para atender a novas exigências, tanto de mercado quanto regulatórias. O futuro da proteína animal depende da capacidade de integrar produtividade, sustentabilidade e confiança — e a tecnologia é uma aliada central nesse caminho”, afirma.
Conceito “inovação aberta”. Veja como ele interage para que o sistema produtivo funcione de maneira eficaz e seus resultados práticos
Inovação aberta é um conceito que propõe a construção de soluções em colaboração com atores externos à organização — como startups, universidades, institutos de pesquisa, outras empresas e até clientes. Isso contrasta com o modelo tradicional, ou “fechado”, no qual toda a jornada da inovação — da ideia até o mercado — ocorre exclusivamente dentro dos limites e recursos da própria empresa.
Na prática, explica Luciana, a inovação aberta pode assumir muitas formas: uma parceria entre empresas concorrentes para resolver um desafio comum; o licenciamento de uma patente depositada por um instituto de pesquisa; a criação de uma spin-off para explorar uma tecnologia originada dentro de uma empresa-mãe; ou mesmo programas estruturados de conexão com startups.
“Esse modelo colaborativo traz uma série de benefícios concretos: reduz riscos e custos, acelera o tempo de desenvolvimento e aumenta as chances de sucesso ao reunir diferentes expertises e visões. No sistema produtivo, isso se traduz em soluções mais rápidas, eficientes e alinhadas às demandas reais do mercado.
Ao abrir as portas para o conhecimento e a experiência que estão fora dos muros da organização, a inovação deixa de ser um processo isolado e passa a ser parte de um ecossistema dinâmico, que multiplica o potencial de impacto e torna o sistema produtivo mais ágil, competitivo e conectado com o futuro”, afirma.
O setor de produção de proteína animal conta com instrumentos jurídicos que garantam segurança para todas as partes envolvidas quando falamos em inovação e tecnologia? Quais são os ‘gaps’ a serem preenchidos? Como definir quais serão os direitos e obrigações de cada participante?
Hoje já existe um arcabouço legal que permite construir instrumentos jurídicos seguros para parcerias em inovação e tecnologia — inclusive no setor de produção de proteína animal. Houve uma evolução significativa nos últimos 20 anos, com leis que passaram a incentivar e viabilizar a cooperação entre empresas e instituições de pesquisa.
Luciana Teixeira aponta que no entanto, ainda existem desafios importantes. “Um deles é o entendimento técnico dessas leis pelas equipes jurídicas das instituições públicas e privadas. Muitas vezes, a legislação não é aproveitada por falta de conhecimento ou familiaridade com esse tipo de parceria. Outro é o aspecto cultural: para inovar de forma aberta, é preciso que todos os envolvidos deixem de olhar apenas para os próprios interesses e comecem a pensar em ganhos coletivos”, diz.
Ela afirma que na prática, os instrumentos jurídicos devem ser construídos caso a caso, com base nas contribuições de cada parceiro — seja infraestrutura, equipe técnica, capital intelectual ou investimento financeiro. “Em linhas gerais, os direitos e deveres futuros tendem a ser proporcionais a essas contribuições. Claro que há elementos subjetivos, como o valor do conhecimento aportado, mas essas definições devem ser construídas de forma transparente, com diálogo e clareza, refletidas em contratos que deem segurança a todos. O mais importante é entender que inovação colaborativa exige confiança, regras bem definidas e disposição para construir juntos. Quando isso ocorre, o setor todo ganha”, diz.